Google faz oferta de remuneração limitada a produtores de notícias

(26/06) Programa começa no Brasil e em mais dois países. Para analistas, empresa tenta se antecipar a uma regulação mais forte do setor

O Google anunciou na quinta-feira um programa de licenciamento de notícias através do qual promete remunerar empresas de mídia de três países por parte do conteúdo que usa em suas plataformas.

O projeto será lançado no fim deste ano e conta com parcerias fechadas no Brasil, na Austrália e na Alemanha, anunciou a empresa.

Para analistas, a iniciativa do Google tem o objetivo de se antecipar à inevitável regulação do setor, que já avança em países da Europa e na Austrália, e que deve obrigá-lo a remunerar mais amplamente a produção de conteúdo.

Valendo-se de conteúdos jornalísticos, plataformas de tecnologia como Google e Facebook alavancaram lucros nos últimos anos sem reparti-los com empresas de mídia, que, por sua vez, amargam prejuízos.

A iniciativa, que no Brasil deve se chamar Painel, vai remunerar os conteúdos exibidos em uma espécie de prateleira de notícias de cada marca dentro do Google News e do Discover (tela de notícias para smartphones). No entanto, está limitado a esse ambiente. Os conteúdos exibidos nas buscas tradicionais, por exemplo, ficam de fora.

Aquém do benefício

Por essa razão, o projeto não atende ao pleito das empresas de mídia. A remuneração, baseada em critérios como audiência e alcance das marcas jornalísticas, é tida por analistas de mídia como muito aquém dos benefícios auferidos pela plataforma. Os valores não foram divulgados, mas, segundo apurou O GLOBO, num dos primeiros contratos no Brasil, não permite custear um único editor sênior.

Responsável do Google pelo programa no Brasil, Andrea Fornes, diz esperar que o programa tenha uma dezena de países participantes ao ser lançado.

— O produto ainda não está pronto. Estamos criando um ambiente em que as publicações parceiras poderão escolher o que vai aparecer do seu conteúdo ali. A publicação faz a curadoria do espaço e vai definir um número limitado de matérias em seu paywall (mecanismo que limita a leitura a não assinantes) que esteja disposta a abrir ao usuário do Google — afirma ela.

A iniciativa surge num momento em que conteúdos jornalísticos atingem alto patamar de audiência e confiança em meio à pandemia do coronavírus. No Brasil, 51% dos entrevistados disseram confiar na maior parte das notícias a maior parte do tempo, segundo pesquisa divulgada este mês pela Reuters. O país é o quinto no ranking dos países em que a imprensa tem maior confiança da população.

Até aqui, o projeto tem parceiros como o grupo Diários Associados, que reúne jornais como Correio Braziliense e A Gazeta (ES), no Brasil; o Grupo Spiegel, na Alemanha, e a editora Solstice Media, na Austrália.

Avanço na regulação

O anúncio foi feito em postagem assinada por Brad Bender, vice-presidente de Gestão de Produto Google News. “Nos lugares onde essa experiência estiver disponível, o Google vai pagar para que o público tenha acesso gratuito a reportagens protegidas por paywall no site dos veículos parceiros”, diz o texto.

No anúncio, o Google defende que a iniciativa é passo importante nos esforços que faz em apoio ao jornalismo profissional. A plataforma sustenta ter gerado “mais público para o setor de imprensa” e impulsionado a “capacidade de gerar receita para os veículos de mídia”.

No ano passado, a União Europeia aprovou uma diretiva sobre direito autoral. Ela será transposta para a legislação de cada país membro do bloco até junho de 2021. Espanha e França saíram na frente.

Na Espanha, a lei sobre propriedade intelectual existe desde 2015. O embate sobre remuneração de conteúdo fez com que o Google desativasse o Google News no país. Na França, onde a legislação entrou em vigor em outubro último, o Google está sendo processado por vários meios de comunicação que exigem o cumprimento das normas.

 

Fonte: O Globo