Veículos éticos têm algo que nenhum algoritmo entrega: responsabilidade, curadoria e compromisso com o que é real
19/01/2026
Na era da inteligência artificial, em que qualquer conteúdo pode ser criado, alterado ou manipulado em poucos segundos, a confiança passa a ser o ativo mais valioso da comunicação, e é justamente aí que os veículos tradicionais voltam a fazer diferença. A partir disso, eu vejo a inteligência artificial chegando à comunicação de forma muito parecida com o que aconteceu com os agrotóxicos na agricultura. Ela entra para ganhar produtividade, reduzir custos e deixar tudo mais bonito. Quando bem usada, ajuda muito, acelerando processos, viabiliza projetos e melhora o acabamento e detalhamento. O problema começa quando usada sem freio, para fins contraditórios e a eficiência passa a contaminar o próprio conteúdo.
No campo, o uso exagerado de agrotóxicos degrada o solo e faz o consumidor desconfiar do que está consumindo. Na comunicação, o efeito é parecido, mas ainda mais sensível: as pessoas começam a desconfiar da informação. O conteúdo fica mais rápido, mais barato e mais “perfeito”, mas também mais artificial, mais genérico e menos humano. A aparência melhora, mas a verdade começa a ficar frágil e isso é trágico.
Com a popularização das fake news impulsionadas por inteligência artificial e dos deepfakes, isso fica muito claro. A mentira não precisa mais ser só escrita. Ela pode ser vista, ouvida e sentida. Vídeos que nunca aconteceram, vozes que nunca falaram e imagens que nunca existiram passam a parecer reais. Quando tudo pode ser fabricado, fica cada vez mais difícil saber no que confiar.
Um caso recente ilustra bem isso. Uma senhora acreditou estar se relacionando com o ator Brad Pitt, enganada por imagens e mensagens criadas artificialmente. Não vejo isso como ingenuidade dela, mas como prova do poder de convencimento desse tipo de conteúdo. Se isso acontece no plano pessoal, é fácil imaginar o impacto quando essa tecnologia é usada em escala.
É impossivel não pensar, o uso maléfico da IA nas próximas eleições. Deepfakes podem colocar palavras na boca de candidatos, criar cenas que nunca existiram, fabricar escândalos ou apoios falsos. Tudo com aparência de verdade e circulando muito rápido nas plataformas digitais, principalmente por estas não serem reguladas. O risco de manipulação da opinião pública é real e não pode ser ignorado.
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Diante disso, não temos como não falar que as plataformas têm um papel central nisso tudo. Elas não comunicam, elas disseminam. Não editam, não contextualizam e não assumem responsabilidade editorial. Funcionam como grandes distribuidores de conteúdo, espalhando informação, desinformação e inteligência artificial sem muito critério ou limite.
É justamente por isso que eu acredito que o papel dos veículos tradicionais nunca foi tão importante. Rádio, TV e portais profissionais ainda têm algo que nenhum algoritmo entrega: responsabilidade, curadoria e compromisso com o que é real. Num ambiente saturado de conteúdo artificial, o valor deixa de estar em quem publica mais e passa a estar em quem entrega algo confiável.
Para mim, a discussão não é se devemos ou não usar inteligência artificial, mas onde ela deve ser usada. Ela pode ser uma grande aliada nos processos internos, na organização, na eficiência e na produtividade. Mas no conteúdo que vai ao ar, no contato direto com a audiência, tenho minhas dúvidas ainda se devemos usar videos feitos por IA, pois as pessoas se conectam com pessoas, não com algoritmos.
A inteligência artificial no audiovisual não é vilã, mas também não é a salvadora da pátria. Sem limites claros, ética e responsabilidade, ela pode fazer mais mal do que bem, sendo bonita por fora, mas perigosa quando consumida sem consciência e produzida sem responsabilização.
Em um mundo cada vez mais artificial, me pergunto se vamos seguir acreditando em tudo o que consumimos ou se vamos reforçar o papel da mídia tradicional como referência de confiança, antes que a informação se torne definitivamente uma MíDIA TÓXICA.
Repórter: Acontecendo Aqui / Beto Amaral – Vice-presidente de Técnicas e Normas ACAERT e Vice-presidente Executivo do Grupo SCC